Critérios de Verificabilidade e Refutabilidade

Convém ressaltar que a discussão sobre a existência de um
discurso filosófico com características próprias é encaminhada por Popper
dentro de um quadro geral de seu pensamento, no qual ela se segue de outras
posições assumidas por ele. Assim, Popper propõe o critério de refutabilidade
(falseabilidade empírica) para a separação entre ciência e não-ciência. Além
disso, posiciona-se criticamente em relação aos conceitos de filosofia
propostos pelos "analistas da linguagem", ou melhor pelos defensores
da "filosofia lingüística", e ainda recusa a atividade dos filósofos
acadêmicos, isto é, a "filosofia profissional".

 Popper defende a posição de que grande parte das questões
filosóficas levantadas até hoje tem resultado da preocupação dos filósofos em
descobrir o que é filosofia ou identificar o objeto e o método da metafísica.
Tais investigações são baseadas em uma concepção essencialista das teorias e
definições. Elas implicam a idéia de que nossas teorias descrevem a essência
das coisas. Por essa razão, essas investigações têm sido inconclusivas, e até
mesmo inúteis. Popper argumenta que os filósofos têm dispendido demasiado tempo
e energia em busca dessas questões definitórias, desgastando-se na procura de
conceituar filosofia, ou de identificar a natureza da atividade filosófica. Seu
argumento sugere que melhor exemplo pode ser encontrado nos cientistas que
procuram solucionar problemas, sem essa preocupação obsessiva em definir seu
campo de investigação ou questionar a atividade que vêm desenvolvendo. Popper
conclui afirmando: “A função dos cientistas e do filósofo é solucionar
problemas científicos ou filosóficos e não falar sobre o que ele e outros
filósofos estão fazendo ou deveriam fazer”.(6)

 A posição daqueles que pretendem identificar um objeto e um
método para a filosofia é baseada na ultrapassada teoria de que devemos iniciar
nossos estudos definindo os objetos e métodos de nosso estudo. A crítica de Popper
a esse pressuposto epistemológico decorre de sua rejeição da posição
essencialista que ele implica, bem como de seus argumentos contra a teoria de
que podemos descobrir um método de validação de nossas idéias. Segundo Popper,
a multiplicidade de disciplinas, áreas de estudo e assuntos está mais associada
a razões históricas, a conveniências administrativas e ao caráter prático
dessas divisões, do que a critérios relativos à natureza dos objetos. Essas
divisões não estão associadas à identificação da natureza do conhecimento
humano. Popper afirma: "Estudamos problemas e não matérias: problemas que
podem ultrapassar as fronteiras de qualquer matéria ou disciplina.(7) Existem
problemas que tradicionalmente estão ligados a certas áreas do conheci- mento,
mas, no mais das vezes, implicam em teorias que se encontram espalhadas em
outras seções do conhecimento, e tal não deve se constituir numa dificuldade
para o investigador.

 Isto tudo significa que não existe um objeto metafísico ou
filosófico. Também não existe um método filosófico – no sentido de um
procedimento pelo qual se produzem teorias metafísicas. O que existe é uma
certa forma de expressar certas soluções que propomos para nossos problemas
que, em virtude das características que ela possui, nós a chamamos de
metafísica ou filosofia. Essa posição parece implicar que, uma vez estabelecida
a refutabilidade como o critério de demarcação entre teorias científicas
(empíricas) e as teorias não-científicas (não-empíricas), já está posto o
critério de separação entre filosofia e outras formas de expressão do
conhecimento.

 Popper argumenta que as teorias científicas são refutáveis,
isto é, podem ser submetidas a teste no intuito de refutá-las. Assim, a testabilidade
das teorias é o mesmo que sua refutabilidade empírica. Ao se afirmar que as
teorias filosóficas não são empiricamente testáveis, chega-se á conclusão que
elas são irrefutáveis por definição.(8)

 Ao estabelecer a testabilidade como o critério de distinção
entre teorias científicas e não-científicas, não se pretende resolver a questão
da distinção entre enunciados com significado e enunciados sem significado.
Segue-se da posição de Popper que, quando se diz que uma teoria não é
científica, isso não significa que ela não tem significado. De igual forma, a
refutabilidade não é posta como um critério para separar teorias verdadeiras de
teorias falsas. Testabilidade ou refutabilidade não significam que uma teoria é
verdadeira. Assim como irrefutabilidade não é critério de falsidade.

 Das razões acima expostas, podemos evoluir para a conclusão que
as teorias filosóficas ou metafísicas não são empiricamente testáveis – sem,
com isso, serem necessariamente sem sentido. São igualmente irrefutáveis – sem,
com isso, serem necessariamente falsas. Contudo, isso também significa que as
teorias filosóficas, sendo irrefutáveis e simultaneamente incompatíveis, não
podem ser consideradas todas verdadeiras.

 Popper afirma, em "O status da ciência e da
metafísica"(9) que podemos distinguir dois sentidos diversos para a palavra
irrefutabilidade. Num primeiro sentido lógico, essa palavra indica a
inexistência de meios puramente lógicos para refutar uma teoria. Assim, nesse
primeiro sentido, irrefutabilidade significa consistência. Num segundo sentido,
irrefutabilidade indica impossibilidade de teste empírico. Nesse sentido, ao
dizermos que uma teoria é empiricamente irrefutável, isto significa que não é
possível deduzir da teoria qualquer enunciado empírico que a tome passível de
refutação. Ela possui elevado conteúdo explicativo, sendo, contudo, compatível
com qualquer experiência possível. O argumento conclui que a irrefutabilidade
não é um critério para se determinar a verdade de uma teoria, isto é, não se
pode concluir que determinada teoria é verdadeira porque é coerente, nem mesmo
que é verdadeira por explicar todos os casos com os quais se defronta. Do mesmo
modo, a incoerência, a irrefutabilidade e o baixo teor explicativo não são suficientes
para determinar a falsidade de uma teoria.

 As teorias filosóficas ou metafísicas não são científicas,
pois não satisfazem o critério da refutabilidade. Popper entende que podemos
distinguir três tipos de teorias racionais: teorias lógicas e matemáticas,
teorias empíricas e científicas, e teorias filosóficas e metafísicas.(10) Nas
teorias lógicas e matemáticas, o critério para distinguir a verdade da
falsidade é o teste com o intuito de refuta-Ias. Não sendo isso possível,
segue-se outro caminho, por exemplo, tentar prová-las. Não sendo isso possível,
tenta-se refutar sua negação ou examinar criticamente as teorias rivais. Esse
processo segue até encontrarmos uma solução satisfatória ou abandonarmos o
problema como difícil demais ou suficientemente discutido. Nas teorias
científicas ou empíricas, procedemos de forma igualmente crítica, tentando
refuta-Ias, quer por meio de considerações críticas, quer por meio de testes
empíricos.

 O critério de identificação das teorias chamadas filosóficas
ou metafísicas tem uma problemática especial. Isso porque as teorias filosóficas,
sendo irrefutáveis, possuem um critério próprio para a avaliação de sua
veracidade ou falsidade. Popper afirma que: “Se considerarmos uma teoria como
solução proposta para certo conjunto de problemas, ela se prestará
imediatamente à discussão crítica, mesmo que seja não-empírica. Com efeito,
poderemos formular perguntas como: Resolve o problema em questão? Resolve-o
melhor do que outras teorias? Terá apenas modificado o problema? A solução
proposta é simples? É fértil? Contraditará teorias filosóficas necessárias para
resolver outros problemas? Perguntas desse tipo demonstram que pode haver
perfeitamente uma discussão crítica, mesmo de teorias irrefutáveis.(11)

 A posição de Popper implica que é possível examinar
criticamente as teorias irrefutáveis. Conseqüentemente, podemos dar às teorias
filosóficas ou metafísicas um tratamento racional. Assumindo que as nossas
teorias são tentativas de solucionar determinados problemas, e que todo
problema envolve uma situação específica, Popper propõe que se analise a
relação existente entre a teoria e a situação-problema que se pretende
resolver. Nesse sentido, nossa razão pode ser empregada corno instrumento
crítico para a identificação de cada situação-problema e para a análise das
várias formas pelas quais podemos resolvê-la. A crítica racional de uma teoria
filosófica envolve a análise da relação existente entre a teoria e um
determinado problema para o qual essa teoria é posta como solução.

 Contudo, jamais chegaremos à solução definitiva de um
problema filosófico, pois não nos será possível a refutação definitiva de
qualquer solução proposta. As soluções filosóficas são sempre cabíveis, e qualquer
solução pode ser proposta a qualquer momento. Não dispomos de um critério que
nos indique a solução verdadeira. Não dispomos da refutabilidade como critério
para a indicação da solução que é definitivamente falsa. Os critérios de que
dispomos são provisórios. Podemos, ao criticar racionalmente uma solução, optar
por uma outra, sem que isso acarrete, contudo, o falseamento da solução
anterior. Em filosofia não ternos soluções definitivas, nem soluções
empiricamente eliminadas.(12)

 Esse é o preço de sua irrefutabilidade. Portanto, conforme
Popper, o método filosófico consiste na discussão racional da relação existente
entre os problemas e as soluções propostas. Não se trata de um método
particular da filosofia. Com efeito, a discussão racional e a atitude crítica
que ela implica estão presentes em toda investigação científica ou racional.
Esse método só é filosófico na medida em que a filosofia também se constitui na
atividade de procurar enunciar claramente os problemas, bem como discutir de
forma continuada as soluções a eles apresentadas. Embora não haja um método
particular para a filosofia, Popper aponta um que, dentre os que têm sido
usados pelos filósofos, ele acredita ser merecedor de menção especial.

 Ele afirma: “É uma variante do método histórico (hoje fora
de moda). Consiste, simplesmente, em tentar saber o que outras pessoas pensaram
e disseram acerca do problema em causa; por que se viram compelidas a enfrentá-lo;
como formularam; como tentaram resolvê-lo. Isso me parece importante, porque é
parte do método geral de discussão racional. Se ignorarmos o que outras pessoas
pensam ou pensaram no passado, a discussão racional se encerrará, embora cada
um de nós possa prosseguir alegremente, falando consigo mesmo. (13)

 Em função dos problemas com que se depara o filósofo, será
muito mais interessante ele utilizar a discussão da história do problema em
cada caso do que se entregar à discussão de questões de linguagem.

 A posição de Popper, embora seja particularmente crítica de

certas opiniões correntes entre os chamados filósofos
profissionais, não desmerece as teorias filosóficas ou metafísicas. Popper
argumenta que, se rastrearmos as teorias científicas através do tempo,
poderemos perceber que a maior parte delas teve sua origem em mitos, em
conhecimento folclórico, e em teorias filosóficas. A esse propósito, afirma:
“…o que considero por filosofia, nunca terá de ser e, na verdade, nunca
poderá ser divorciado das ciências. Historicamente, toda ciência ocidental é um
produto da especulação filosófica grega sobre o cosmos, a ordem do mundo.(14)

 Destaque-se, ainda, o fato de que a linha demarcatória entre
ciência e metafísica não pode ser traçada com acentuada nitidez. Existem graus
diversos de testabilidade que se alongam desde a perfeita testabilidade até a
absoluta impossibilidade de teste. Existem também as teorias mais ou menos
testáveis, e elas formam uma zona nebulosa entre ciência e filosofia.(15)

 Fonte: http://peluso.ufabc.googlepages.com/BC0101-texto-aula7.doc

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