A experiência do sagrado na evangelização

O homem é um ser religioso. Esta afirmação contém uma grande chave para entendermos como a experiência com o Sagrado é uma porta aberta e eficaz para a evangelização.

Mergulhando um pouco na dimensão antropológica do sagrado, percebemos que é essencial ao ser humano a sede de encontrar respostas, de buscar em si e nas situações, verdades sobre si mesmo, sobre Deus, sobre a sua alma. Isso o impele a buscar algo que seja transcendente à sua existência, dando-lhe respostas que atinjam a satisfação de sua alma, continuando esta, no entanto, perenemente insatisfeita. Nisso percebe-se que o ser humano traz no seu coração o sentido do tempo, da eternidade (Ecle 3,11) e este sensor não é algo automático e mecânico, mas, pulsa, tem vida e tende a crescer à medida que ele experimenta o sagrado. Ainda que o homem não creia no transcendente, persiste constantemente em seu íntimo a indagação sobre a presença de algo que supõe a sua existência.

Muitos estudos atuais afirmam que a experiência do sagrado surge bem antes que o ser humano tenha qualquer tipo de ciência ou representação sobre Deus. Essa experiência é intrínseca à sua vida. “O sentido do sagrado está relacionado à dimensão ontológica da pessoa. Entendemos então, o sentimento religioso como uma tentativa de busca do sagrado, entendido como anseio da potência do ser. ” Podemos fazer uma alusão com a criança que é concebida no ventre de sua mãe. A mãe e o filho desenvolvem uma relação tão íntima que, ao nascer, a criança reconhece na sua genitora os seus próprios traços. A criança, portanto, identifica-se ao primeiro contato com a mãe; vive, assim, a sua primeira experiência de júbilo e encantamento.

O contato com o Sagrado provoca em nós essa identificação perfeita, uma identificação como filho de Deus, gerando em nossa alma a experiência de júbilo e encantamento, porque o Sagrado é parte de nossa condição humana. Esta condição não é anulada, mesmo que o homem encontre-se distanciado de Deus. Contudo, quando este retorna à sua condição filial, o divino é concebido como absoluto, potencializando sua identificação com Aquele que o criou. O inverso desta experiência é provocado pelo relativismo, no qual o homem absolutiza o que é temporal. Podemos chamar essa experiência de ‘coisificação’ do ser humano, ocultando qualquer semelhança com o Divino e levando o homem a negar a si mesmo.

Esta análise muito nos ajuda a compreendermos como a experiência com aquilo que é sacro é importante para a evangelização. As nossas ações evangelizadoras devem despertar no coração do homem ferido e afastado de Deus, a profunda identificação que ele possui com Aquele que o criou. Ele encontra o real sentido de sua existência e, profundamente identificado com Deus, ele vê-se profundamente amado. Nesta experiência o homem pressente o Divino, se vê como fruto das entranhas do Criador, percebe-se pertencente a uma realidade que é superior a dele e ao que poderia pensar sobre si mesmo, sua dignidade é resgatada e ele vive uma transformação em seu ser.

Nesse contexto vemos que a liturgia supõe a experiência com o Sagrado. Sendo ponte para a comunhão com toda a Igreja da terra e do céu, torna-se, então, um poderoso e eficaz meio de conhecimento do Pai Criador de todas as coisas, do Filho que deu seu Corpo e seu Sangue para a redenção da humanidade e do Espírito, o amor do Pai e do Filho e o santificador de todas as almas. Nisso vemos a importância dos ícones, da simbologia litúrgica, que insere o nosso ser, por meio dos sentidos, a uma contemplação mais profunda dos mistérios celebrados. As imagens sacras e iconográficas são como portas abertas à experiência com o Sagrado, pois revelam os traços da Palavra de Deus, permitindo a quem contempla ser purificado em seus sentidos. Os cantos litúrgicos também muito colaboram para a vivência da celebração, sendo eles executados com harmonia e sobriedade.

Destacamos também a importância de uma catequese mistagógica, que leve os participantes da celebração litúrgica a penetrarem no mistério que está sendo revelado por meio da Eucaristia. As monições feitas pelo comentarista durante as Celebrações Eucarísticas, sendo bem preparadas, claras e querigmáticas, são meios eficazes de evangelização, pois, nestes momentos, muitas almas compreendem e retomam o sentido de suas vidas, e voltam para Deus. 

Sejamos reveladores do Sagrado em nossa evangelização, para que o homem sofrido e desfigurado pelo pecado encontre a sua verdadeira identificação como filho de Deus, o seu Criador. 


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